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Meditando a Palavra

Sempre que os profetas do Antigo Testamento querem anunciar o Grande Dia de Deus, a sua vitória definitiva contra todas as forças do mal, encontramos a mesma linguagem, estas mesmas imagens, já presentes na 1ª leitura de hoje, do livro de Daniel.  Nesta altura em que o profeta escreve, o povo de Israel vivia um dos tempos mais terríveis da sua história. Depois das conquistas de Alexandre Magno, e com a sua morte, a Palestina fica sob a ocupação grega. Alexandre foi bastante liberal com os povos ocupados, mas nesta época, cerca do ano 170 antes de Cristo, quem governava era um tal Antíoco Epifanes, de triste memória para o povo de Israel. Ele quer ser o verdadeiro Deus do povo e pretende ser adorado como tal. Todos os que não obedecem são torturados e mortos. Uma grande maioria cederá, mas outros resistem e morrem. Com esta mensagem que não podia ser dita senão de uma forma codificada e posta no futuro, Daniel diz-lhes: «Miguel, o chefe dos anjos, vela por vós… aparentemente, vós experimentais a derrota e o fracasso, a morte dos vossos melhores heróis, o horror… vedes a vitória dos que semeiam o mal e o terror. Mas, no final, vós sois os grandes vencedores! O combate dá-se na terra e no céu: vós só vedes o que se passa na terra, mas no céu, ficai a sabê-lo, os exércitos celestes já ganharam a vitória por vós.» E o povo percebia bem que esta mensagem era para eles, agora, no presente, em que as suas vidas se jogavam.
Também o evangelho de hoje é a Boa Nova da esperança, em linguagem apocalíptica. Era uma linguagem codificada: à primeira vista, trata-se do sol, das estrelas, da lua e tudo isso vai ser terrificante, mas, na realidade, trata-se de algo bem diferente! Trata-se da vitória de Deus e dos seus filhos no grande combate que travam contra o mal desde o princípio do mundo. Está aqui a especificidade da fé judaico-cristã. É por isso um contrassenso empregar a palavra Apocalipse a propósito de acontecimentos terríveis, pois na linguagem crente, judia ou cristã, é precisamente o contrário. A revelação do mistério de Deus não visa nunca causar terror aos homens, mas, ao contrário, permitir-lhes viver todas as revoluções da história «levantando o véu» para manter viva a esperança. 

Será que esta esperança anunciada na 1ª leitura e no Evangelho poderá servir para nós hoje também? Olhando para a situação do mundo de hoje e mesmo para a situação da Igreja no Ocidente, em que não havendo perseguição física, há outro tipo de perseguição mais insidiosa e encoberta, estas leituras dizem-nos: Deus está connosco em todas as situações da história, sejam elas pessoais ou coletivas e tem sempre para nós uma Palavra em que nos revela o seu desígnio de amor para nós. E essa palavra realizar-se-á. Podem passar o Céu e a Terra, mas as minhas palavras não hão de passar, diz o Senhor.
Estamos na semana dos Seminários e sabemos que muitos deles tiveram que fechar por causa da falta de vocações.  Alguns vêm isso como um sinal de que a Igreja e o cristianismo estão a definhar, pelo menos na Europa ocidental.  Ainda por cima o escândalo que atravessou muitos países em relação a vários sacerdotes foi mais uma machadada forte na confiança na Igreja.  Tudo isto pode levar muita gente a ter uma sensação de desânimo e até falta de fé. Mas Deus é maior que os nossos pecados e Ele sabe o combate espiritual em que estamos todos metidos. As perseguições e os sofrimentos da Igreja vêm de fora e de dentro mas os mais perigosos são quando vêm de dentro. E o demónio sabe que se conseguir que o escândalo e a perseguição venha de dentro obtém melhores resultados. O papa Francisco sabe discernir a presença misteriosa do mal e do tentador e por isso pede à Igreja que reze a S. Miguel Arcanjo  para que Ele continue  a estar ao nosso lado neste combate. Diz-nos a primeira leitura: “ Naquele tempo, surgirá Miguel, o grande chefe dos Anjos, que protege os filhos do teu povo. Será um tempo de angústia, como não terá havido até então, desde que existem nações. Mas nesse tempo, virá a salvação para o teu povo, para aqueles que estiverem inscritos no livro de Deus”.
A Igreja é do Senhor e Ele vela por ela. Deus ama-nos e nunca nos abandona ainda que aparentemente as coisas pareçam más e angustiantes. Mas Deus espera que nós saibamos aprender com tudo o que vivemos. Os momentos de crise foram sempre momentos de crescimento e de renovação. Eu acredito que os sofrimentos da Igreja no tempo presente estão já a ser tempos de purificação para que a Igreja entre numa nova e mais bela etapa de identificação com o seu Senhor.  Como olho para os acontecimentos do mundo e para a vida da Igreja? Com esperança ou angústia? Acredito que Deus está connosco ou penso que estamos sozinhos nesta caminhada?   

P. Jorge