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Meditando a Palavra

A Igreja começa o tempo comum, depois da celebração do batismo do Senhor que corresponde ao 1º Domingo do tempo comum. Na vida de Jesus como também na nossa vida de discípulos d’Ele, tudo começa com o batismo. Diz-nos a 2ª leitura de hoje tirada dos Actos dos Apóstolos: “Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele”. O Batismo de Jesus no rio Jordão é um facto histórico, bem atestado por todos os evangelistas. Mas estes não nos dão só o facto, relatam-nos também a experiência interior que Jesus viveu neste momento. S. Lucas diz-nos que enquanto Jesus orava, durante o baptismo, o céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal, como uma pomba. E ouviu-se então a voz do Pai: « Tu és o meu Filho muito amado: Em tu pus toda a minha complacência.» Mas como é que S. Lucas, que não foi apóstolo, e portanto não estava lá com Jesus, pode ter acesso à experiência que Jesus viveu neste momento e que reorientou a sua atividade de, até aí escondida, para uma vida pública? S. Lucas tem um termo de comparação: É a experiência que a comunidade cristã do seu tempo fazia do batismo. Este sacramento era vivido na assembleia cristã em ambiente de profunda oração e louvor de Deus. Os batizados eram mergulhados na água de uma piscina, diante de toda a comunidade, sinal do seu mergulho no amor Trinitário do Pai , do Filho e do Espírito Santo, através do dom pascal de Jesus. O Espírito Santo, vinha e fazia-os sentir o amor do Pai testemunhando ao seu espírito humano que que eram filhos de Deus no Filho a cujo mistério de morte e ressurreiçaõ se uniam. O mesmo Espírito Santo derramado nos seus corações fazia-os dizer, à maneira de Jesus: « Abbá, Pai». Esta envolvência tão profunda no amor trinitário era o início da vida dos crentes que doravante são chamados a viverem como homens novos, “fazendo o bem” e anunciando as maravilhas de Deus. S. Lucas não se refere portanto apenas a um saber teológico do que acontece no baptismo mas a uma experiência sensível, de tal forma que usa termos que revelam a dificudade em traduzir a experiência: Diz que o Espírito veio em forma corporal. Mas que quer isto dizer? 

Se é Espírito, como pode vir em forma corporal? E depois acrescenta, como uma pomba. Não diz que é uma pomba, mas “como uma pomba”. Parece-se com aqueles pintores ou artistas que representam o irrepresentável dandolhes um estilo etéreo e estilizado. O que S. Lucas quer transmitir é que a experiência de Jesus foi profundamente sensível levando -o ao «estremecimento do coração» como mais tarde nos é contado pelo mesmo evangelista dizendo que “Jesus estremeceu sob a ação do Espírito Santo e rezou: « Bendigo-te ó Pai, Senhor do céu e da terra porque escondeste estas coisas aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos». O batismo terá sido um dos grandes momentos do estremecimento de alegria filial de Jesus. Por isso aqui começa a sua atividade messiânica, para anunciar a Boa nova aos pobres e a libertação aos oprimidos, como dirá na sinagoga de Nazaré.” Com a cristianização do império, o baptismo começou a ser realizado cada vez mais na idade infantil desligando-o desta experiência sensível, pois a criança não tem consciência do que está a fazer. No baptismo das crianças testemunha-se que tudo é graça já que só Deus se dá sem que possa receber a adesão da fé do baptizado. Por agora esta adesão é dos pais que umas vezes é verdadeira e sincera outras nem tanto. Adia-se assim para mais tarde a experiência do encontro com Jesus que o batizado possa fazer quando aderir pela fé ao Senhor e receber o Espírito Santo. 
No entanto também no crisma muitas vezes a preparação consiste mais em receber conhecimentos do que em abrir-se ao dom do Espírito e acontece frequentemente que os crismados também não fizeram nenhuma experiência sensível de encontro com Deus pela ação do Espírito. E por isso também aqui não é o início de nada. Por isso dou tanta importância ao percurso Alpha e a todos os grupos que ajudam o crente a fazer esta experiência sensível do amor de Deus, despertando neles o dom que já os habita desde o batismo mas que tem estado adormecido. Quando se faz, começa então a vida em Cristo e no Espírito. Relembro as palavras de Bento XVI: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e com ele, um novo rumo”. Uma comunidade cristã missionária é uma comunidade que faz a experiência do dom da graça que recebeu e responde entregando-se na missão de anunciar o evangelho aos pobres. Por isso ajudar os cristãos a fazer este encontro com Deus. assumindo o dom do batismo é o grande desafio. 

P. Jorge